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O bom e velho pinheiro da família não está mais no jardim. Mas nosso coração ainda pode sentir a sua presença. - Por Kent Nerburn*, PHD


- Sinto muito, senhor. Mas será preciso tombá-lo. -Tem certeza? Não há nada que possamos fazer? – o homem aponta para o alto, em direção aos inúmeros buracos que rodeiam o tronco do pinheiro. Estão a quase vinte metros de altura.

 

–  Bem no meio. Está oco lá dentro. Um dia de vento mais forte e sequer teríamos tempo de gritar Madeiiiiiiiira! 

 

Eu preciso que você decida correr o risco de que esta árvore caia onde dormem aqueles que você ama. Do contrário, assumo o ônus, e trato de derrubá-la agora mesmo.


Há quanto tempo está conosco? Desde que a casa estava na planta. Só nós sabemos o quanto foi difícil protegê-la durante a construção. Arquiteto, engenheiro e operários resmungavam toda vez que tinham de contornar a árvore que os atrapalhava em seu trabalho. Dia após dia. 


         À medida que resistíamos, nós e o pinheiro, este tomava posse do jardim, silenciosamente, de toda a casa. Com o passar dos anos, tornou-se parte da nossa vida.  

 

        Era aprazível dançar ao som do seu silêncio quando, em perfeita harmonia, o pinheiro da família e a brisa de outono conversavam. Ouvíamos a sinfonia, de todas a mais suave, junto à janela do segundo andar. A árvore e o vento eram música.

 

        O nosso pinheiro foi sombra na varanda em dias quentes de verão; e os ramos cobertos de neve, santuário para pássaros e pequenos animais à procura de abrigo no inverno. Podíamos calcular a força da chuva e dos raios quando o pinheiro inclinava para, então, deslizar e esfregar-se na janela. A primavera tinha acabado de começar.

 

        Fomos rendidos em vista da circunstância. A notícia veio como um choque, e a decisão teve de ser tomada. O homem levou menos de uma hora para escalar o pinheiro, descer e limpar terreno sem deixar qualquer rastro. 

 

        Louise e eu nos vimos atônitos diante de um imenso vazio no gramado, os olhos repletos de lágrimas. Bem... Vamos pegar muito mais Sol a partir de hoje!– eu disse, e o humor fingiu nos afastar, por um instante, do vazio maior que sentíamos por dentro.

 

        Foi como perder um amigo. Para nós, o pinheiro era um amigo, paisagem, música, sombra, a brisa que vinha, sutil, bater à janela; e enriquecia nossas vidas, conquanto as embalava.         

 

         Depois de algumas semanas, comprei uma muda de vidoeiro, e plantei-a no lugar. Dela brotaram flores, que mudaram de cor, agitaram-se e até dançaram com a chegada do outono. Mas, no fim das contas, era outra árvore: o antigo pinheiro mantínhamos num cantinho especial do coração.

 

         Semana passada, o inverno estava prestes a acabar, e eu estava sentado na cozinha, observando o vidoeiro com seus botõezinhos recém-nascidos de bétula, quando o telefone tocou. Era a minha mãe do arranha-céu em que reside, a 250 milhas daqui. Sentia-se solitária e queria conversar.

 

        Como estão as crianças? O trabalho?


        Você lembra daquela vez que saímos juntos de férias, e o carro quebrou?


Era o mesmo filme de sempre; a preocupação e as lembranças de costume. Por mais que me esforçasse, meu olhar desviava para a cena do lado de fora.
  
         O inverno levou consigo os últimos sinais da velha árvore. E é impossível, afora para quem viu de perto, notar que o jardim já lhe pertenceu. Pois que, sobre todo o passado, cresce grama fresca, jovem e verde.

 

          Só um minuto, mamãe – eu disse. Estou indo lá pra fora.

 

          Ela continuou falando enquanto eu carregava a cadeira a caminho do jardim.
  
          Algum problema? – ela perguntou.

 

          Respondi que não. Não há nada errado, minha mãe. Sentei-me no ponto exato onde viveu nosso velho amigo. Às vezes, o sinal não pega tão bem – prossegui. Agora, posso ouvi-la bem melhor.

   
       
*KENT NERBURN é autor de inúmeros livros sobre espiritualidade diária e assuntos de interesse dos cidadãos americanos. Visite seu website: kentnerbur.com       

 

 

 

 

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